COVID-19 e os impactos da quarentena

Pandemia

Em tempos de COVID-19 muito tem sido dito sobre hábitos simples, como o lavar as mãos, a utilização de máscaras e o tampar a boca ao espirrar. Muitos desses comportamentos apresentam função específica: evitar a transmissão do vírus. Em tempos de pandemia, a busca por evitar o contágio assume uma representação diferente.

Em diversos momentos da nossa vida, lugares que possibilitavam o contato social representavam fontes de lazer e diversão, como era o caso de bares, cinemas e shoppings. Atualmente a representação desses locais é de perigo e contágio. O contato social face a face tem sido escasso e evita-lo torna-se fundamental visto que a transmissão do COVID-19 (Corona Vírus Desease-2019) acontece entre seres humanos (Paules, Marston e Fauci, 2020) e tem causado alarme entre as principais agências de saúde. Apesar da mortalidade da doença causada pelo vírus ser menor que de outros (SARS-COV e MERS-COV) da “mesma família”, a rápida transmissão confere à situação uma extensão de pandemia e enorme problema para a saúde pública.

O problema ainda aumenta quando fica evidente uma transmissão assintomática do vírus (Bai et al 2020). Isso implica em afirmar que ainda que pessoas não apresentem sintomas claros para a doença, elas podem portar o vírus e contaminar outras ao seu redor. Outro fato reportado no estudo é o tempo de incubação do vírus que pode chegar até 24 dias, contudo, atualmente o discutido é que o tempo de incubação varia até 14 dias (Ministério da Saúde). Isso implica que ainda que a pessoa apresente sintomas posteriormente, ela pode se tornar um agente transmissor antes mesmo dos sintomas aparecerem.

A transmissão rápida e a dificuldade em controlá-la torna-se problema de saúde pública. A falta de leitos para atender a população que necessita de cuidados pode ser uma ameaça real, caso a situação não seja alterada. Ainda que algumas autoridades escolham minimizar o problema, a situação é grave e deve ser tratada como tal. Cabe lembrar que, por ser um vírus novo, as pessoas não estão imunizadas e, portanto, todos estão vulneráveis. A perspectiva ainda é que as pessoas e os profissionais de saúde devem se preparar para lidar com a situação por um tempo longo, sendo possível que no próximo inverno a situação volte a piorar (Jiloha, 2020).

As implicações são enormes e o impacto é visível. Notícias apontam profissionais de saúde sendo hostilizados no transporte público, familiares de pessoas com suspeita ou falsa suspeita de COVID-19 sofrendo preconceito, a necessidade da tomada de atitudes drásticas para o controle da pandemia e figuras de poder menosprezando a seriedade da situação. Mais do que nunca saber onde buscar informações e quando buscá-las torna-se fundamental.

Frente a essa nova realidade a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem se posicionado de maneira ativa e liberou no dia 25 de março de 2020 uma verba de dois bilhões de dólares para auxiliar países mais vulneráveis a lidar com o COVID-19. Além disso, foi emitido um alerta para a utilização de medicamentos para o tratamento desta doença: nenhuma droga se mostrou segura e efetiva para o tratamento do COVID-19, porém algumas foram sugeridas como potenciais candidatos e estudos clínicos devem começar em breve (WHO – event as they happen, 2020).

Mais recentemente, no dia 27 de março a Organização Mundial de Saúde lançou um alerta por Whatsapp que tem como objetivo manter pessoas informadas sobre a situação mundial. As informações estão disponíveis em quatro línguas (Inglês, Francês, Espanhol e Árabe). Para ter acesso a essas informações basta enviar uma mensagem para os telefones cadastrados no site da Organização Mundial de Saúde (WHO – event as they happen, 2020) ou acessar o link na descrição da página do próprio site. A expectativa é que essas informações ajudem na tomada de decisão frente a essa nova situação. Uma das principais importâncias do acesso a informação fidedigna é a capacidade de tomada de decisão baseada em evidências concretas e confiáveis sobre situação atual.

Com o número de casos em crescente, é importante pensar nos impactos que ficarão. Uma das preocupações esta relacionada ao estigma que vem ocorrendo: pessoas que viajaram para países que tem sofrido drasticamente com a pandemia (p. ex. Espanha e Itália), profissionais de saúde e pessoas em tratamento para síndromes gripais têm sofrido com essa situação. Para evitar ainda mais o estigma, sugere-se cuidado ao se referir a pessoas em tratamento (termo sugerido) para o COVID-19 e evitar termos como: “os infectados”, “os COVID” ou até mesmo “os familiares dos COVID”. Com a rápida propagação da doença não demorará até todos conheçam alguém contaminado e que sofra com essa situação.

Outro problema sério com relação ao estigma é que pessoas tendem a fugir dessas situações. Isso implica que pessoas com sintomas podem evitar tratamento ou mascarar situações para não serem rotuladas ou sofrerem preconceitos. Isso contribui de maneira negativa com o controle da transmissão da doença, visto que muitas pessoas continuarão em suas atividades normais apesar do contágio.

Além do estigma relacionado à doença, outra dificuldade tem sido a quarentena. O esforço consciente de isolamento para evitar a transmissão do vírus tem sido aderido por diversas pessoas e pode contribuir diminuindo a propagação do vírus. As sugestões são que todos adotem essa medida, independente de ser do grupo de risco, ter sintomas ou acreditar na seriedade da situação.

Apesar de uma maneira efetiva de diminuir o contágio e uma necessidade no momento, a quarentena também apresenta suas dificuldades para quem a adota e a principal esta relacionada com a saúde mental. Merecem destaque as relacionadas a estresse, ansiedade, perda do senso de propósito e sentimento de abandono e negligência. O suporte para essas situações pode vir tanto da família quanto de profissionais de saúde. Esse suporte deve ser realizado a distância por telefone, vídeo chamadas outras formas de comunicação que não envolvam quebrar o isolamento.

Existem algumas possibilidades para lidar com as dificuldades do isolamento. Dentre as principais sugeridas vale ressaltar a manutenção de uma rotina, uma comunicação com outras pessoas, consumo e divulgação de informação confiável (muito cuidado com fake news!) e não em excesso e a prática regular de uma atividade física e meditação mesmo que dentro de casa, podem contribuir neste momento.

Para a manutenção da rotina é sugerido criar um contexto favorável para a realização da mesma. As pessoas que tem aderido ao home office, por exemplo, poderiam se “vestir para o trabalho”, mesmo que esse seja realizado em casa, deveriam se afastar de situações que prejudiquem a concentração nesse momento, como televisão, jogos e até mesmo a geladeira e deveriam estabelecer horários para a realização das atividades. Os horários podem ser mais flexíveis, mas ainda assim são importantes.

A comunicação com outras pessoas é fundamental tanto dentro como fora de casa. Para a situação fora de casa, o sugerido são os meios que não quebrem a quarentena. Para a comunicação dentro de casa vale a pena pensar em como são os relacionamentos. Conversas com crianças, por exemplo, devem ocorrer de maneira honesta, direta, respondendo às questões de acordo com necessidade e curiosidade. É interessante sempre partir do ponto de vista da criança e, para isso, perguntas como “onde você viu isso?” ou “como você chegou a essa conclusão?” podem ser úteis. Além disso, ajudar a criança a expressar emoções e sentimentos (inclusive as difíceis como tristeza e medo) é fundamental. Em alguns casos atividades como desenho e jogos podem auxiliar nessa expressão de sentimentos. Idosos também merecem um cuidado específico nesse momento, visto que o isolamento pode estar relacionado a sentimentos de invalidez, peso para os demais ou desesperança.

O consumo de informação deve ocorrer de fontes seguras e não em demasia. Muita informação pode ser preocupante e desnecessária, o que pode estar relacionada a maiores sensações de ansiedade e estresse. Uma sugestão interessante para informação pode ser o site: http://thegoodnewscoronavirus.com/.

Com relação ao auxílio profissional, o sugerido são profissionais com boa formação. Para o atendimento online alguns cuidados devem ser tomados. Dentre os cuidados merecem destaque a privacidade para a realização do atendimento (por parte do cliente) e a manutenção e garantia do sigilo (por parte do profissional). Para que isso ocorra podem ser utilizados aparelhos de ruído branco e o atendimento deve ser realizado em ambientes adequados e com isolamento acústico. Cabe lembrar que as sessões online podem parecer estranhas em um primeiro momento, principalmente para quem esta acostumado com o atendimento presencial, mas que elas são permitidas pelo Conselho Federal de Psicologia e, nesse momento, são inclusive sugeridas.

Referências

Jiloha, R. C. (2020). COVID-19 and Mental Health. Epidemiology International (E-ISSN: 2455-7048), 5(1), 7-9.

Bai, Y., Yao, L., Wei, T., Tian, F., Jin, D. Y., Chen, L., & Wang, M. (2020). Presumed asymptomatic carrier transmission of COVID-19. Jama.

Paules, C. I., Marston, H. D., & Fauci, A. S. (2020). Coronavirus infections—more than just the common cold. Jama, 323(8), 707-708.

Sites de notícias: https://www.bbc.com/portuguese/geral-51983987 e https://globoplay.globo.com/v/8431524/

World Health Organization (2020). Event as they happen: rolling updates on corona vírus disease (COVID-19). Publicado em:

https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/events-as-they-happen
Ministério da Saúde (2020). Sobre a doença. Disponível em: https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca#transmissao

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Voltado para o ensino, pesquisa e assistência nas áreas de psicologia e educação, o IPECS – Instituto de Psicologia, Educação, Comportamento e Saúde, destaca-se no ensino da Neuropsicologia Clínica, da Psicologia Clínica com enfoque na abordagem cognitivo-comportamental e na psicologia da saúde. Nossos profissionais são altamente qualificados (livre-docentes, mestres e doutores), considerados referências nacionais em seus campos de pesquisa.

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